Destaque

22/10/2019

Relevos doliniformes nas Bacias Hidrográficas Paraná III e Piquiri

Gustavo Ribas Curcio1; João Henrique Caviglioni2, Annete Bonnet3

 

Durante o levantamento semidetalhado de solos que está sendo executado pelas equipes do Projeto PronaSolos Paraná na Bacia Hidrográfica Paraná III e parte da Bacia Hidrográfica do Piquiri, estão sendo identificados e registrados relevos doliniformes (Figura 1).

Esses relevos se caracterizam por terem conformações depressivas, fechadas, sem canais superficiais que permitam o escape das águas em si estocadas, proporcionando o acúmulo permanente ou temporário das águas pluviais. Em sua grande maioria, ocorrem nos topos de interflúvios e exibem feições de abatimento parcial – conformação abaciada, com formas semicirculares a alongadas (Figuras 2 e 3), tamanhos (Figuras 4 e 5) e graus de abaciamento muito variados.

A presença de vegetação dentro dos relevos doliniformes contribui para a acidificação do ambiente (Figura 6), o que proporciona a hidrodissolução de minerais primários do embasamento geológico, resultando em diferentes graus de abaciamento da paisagem.  Não obstante, em alguns relevos doliniformes foram registradas fortes intervenções antrópicas através da instalação de drenos (Figura 7) com a finalidade de favorecer ao uso agrícola (Figura 8).

Deve-se ter em mente que o uso agrícola é totalmente impróprio pela possibilidade da ocorrência do afloramento do lençol freático (Figura 7), proporcionando extrema fragilidade ambiental devido à contaminação com adubos e defensivos agrícolas. Nesse sentido, deve-se ter em mente que o solo e os respectivos mantos de intemperismos, nos locais dos citados relevos, não apresentam grandes espessuras. Esse fato, sem dúvida, incorre em uma menor “capacidade filtro”, aumentando o potencial de contaminação do aquífero confinado Serra Geral, sobretudo se sob esses relevos houver algum controle de ordem estrutural – falhas e fraturas.

Até o presente momento, mais especificamente, esses relevos vêm sendo identificados nos subplanaltos de Cascavel e Campo Mourão, no entanto intensificam suas frequências nesse último, em especial próximo a Palotina e Maripá aonde os topos de interflúvio possuem maior tendência ao aplainamento.

Interessante citar que em algumas situações foram identificados relevos doliniformes que já se encontram conectados diretamente a rios e córregos (Figura 9). Esse fato sugere que os abaciamentos podem ser um dos agentes causais no estabelecimento dos canais de drenagem de primeira ordem (Figura 10). Depreende-se que em alguns casos as drenagens naturais se estabelecem através do processo de abatimento superficial para jusante em função da retirada de sedimentos finos em subsuperfície promovidos por fluxos hídricos subsuperficiais ácidos provenientes dos solos que estão circunvizinhos aos relevos doliniformes, somados às soluções ácidas presentes nos relevos doliniformes.

Fato notável é o de que a presença do relevo doliniforme promove alterações na configuração dos padrões de drenagem. É possível visualizar nos interflúvios de que o canal de drenagem que interliga o rio a esses relevos assume um padrão errático, com direcionamentos muito distintos dos padrões normais onde não ocorrem os mencionados abaciamentos, fato já evidenciado pelos autores em outras litotipias, a exemplo, Arenito Furnas próximo a cidade de Ponta Grossa, Paraná.

A condição depressiva fechada favorece forte acúmulo de água, condição que determina a gênese de solos áquicos – regime hidromórfico, dos quais sobressai o PLINTOSSOLO PÉTRICO Concrecionário gleissólico. Essa classe de solo foi identificada em razão da presença dos horizontes plíntico e concrecionário, os quais foram formados devido ao aporte de fluxos hídricos contendo altos de teores de ferro e manganês provenientes dos solos circunvizinhos, derivados de arcabouço geológico constituído por rochas eruptivas básicas, a exemplo, basaltos.

A constância de solos hidromórficos determina a presença de uma cobertura vegetal essencialmente hidrófila (adaptada a presença de água), seja campo (Figura 6) ou floresta, a qual originariamente contrastava fisionômica e floristicamente às florestas exuberantes estacionais que ocorriam em solos não hidromórficos dos interflúvios da região. Vale citar que em função das drenagens feitas nessas áreas houve a alteração do regime hídrico dos solos e, consequentemente, culminou também com a descaracterização da vegetação original, elementos que devido ao seu valor nos deveria levar a uma nova reflexão sob o uso dessas áreas.

Notas técnicas são publicadas periodicamente e ficam disponíveis para consulta aqui no site, na Pronateca! Para acessar, clique no link abaixo:

http://www.pronasolos.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=8                                                           

1 – Pesquisador da Embrapa Florestas – gustavo.curcio@embrapa.br

2 – Pesquisador do Iapar – jhcaviglione@gmail.com

3 – Pesquisadora da Embrapa Florestas – annete.bonnet@embrapa.br

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